Geralmente, encontros têm padrões dependendo das pessoas que estão envolvidas nesse encontro. Se forem duas pessoas com gostos parecidos, que bom, fica mais fácil. Elas podem ir a um museu, por exemplo, ou ir para uma festa neon em um beco escuro insalubre no centro da cidade. Mas, os gostos de uma pessoa não vêm impressos no rosto dela. Se a pessoa não disser nada e acatar tudo que for sugerido, o encontro vai ser do jeito que a outra pessoa sugerir. E foi isso que aconteceu quando eu decidi sair com um menino autista.
Vou sempre me repetir e dizer que tudo começou quando eu terminei meu relacionamento, mas é a verdade. Eu sempre me escondi sobre ser gay e atingi a maioridade no meio da pandemia de corona vírus. Quando os protocolos de proteção foram flexibilizados, eu comecei a sair. Saí com um cara e depois com o meu ex e não saí com mais ninguém por quase dez meses. Quando nós terminamos, decidi que ia sair com pessoas diferentes e experimentar, até que eu decidisse entrar em um novo relacionamento
Essa jornada me levou até Leonardo, um menino que eu conheci no Tinder. A princípio, eu sabia que ele era autista. Era um menino bonito, alto, com o cabelo muito escuro e que dizia ser escritor, o que rapidamente chamou a minha atenção, pois eu também queria ser escritor. A gente conversou bastante e marcamos de sair. Até que ele me contou sobre os livros que tinha escrito. Eram livros sobre a vivência dele como autista e perguntou se eu teria problema com a condição dele.
Eu pensei muito sobre. Não cheguei a ler os livros dele, mas a minha mãe é professora e tem muito contato com crianças autistas, então eu me baseei no que a minha mãe falava sobre essas pessoas. Limpei a minha mente e aceitei o encontro. Uma pessoa LGBTQIA+ já passa por tantos preconceitos na vida. Eu sendo um homem gordo sei o que é ser excluído. Então, não quis excluí-lo e decidi dar uma oportunidade. Pois bem…
O problema é que eu sugeri que a gente fosse ao cinema. Eu sempre sugiro cinema nos primeiros encontros, porque é um lugar público, mas reservado ao mesmo tempo. Ou seja, eu não corro perigo de vida. Quando eu sugeri, ele acatou. A gente marcou de se encontrar no shopping, mas eu não lembro o horário e nem que filme íamos assistir, só lembro que era um domingo a tarde, então não tinha quase ninguém no shopping.
Aqui na minha cidade tem dois shoppings: um mais popular e outro que não vai muita gente. Fomos no segundo justamente por ter menos gente. Ele disse que não gostava de aglomerações. De verdade, eu também não.
Quando eu cheguei, encontrei ele com o primo dele me esperando. No momento em que eu vi ele, percebi a enrascada que eu tinha me metido. Ele estava retraído, mas parecia nervoso. O primo dele era muito simpático e eu gostei de ver que ele se preocupava.
Eu e Leonardo sentamos nas mesas que ficam no pátio do shopping e conversamos por quase duas horas. Ele contando da vida dele e eu, da minha. O problema é que ele gaguejava demais por estar ansioso e se mexia para frente e para trás na cadeira. Quando eu perguntei, ele disse que era normal quando ele estava ansioso. Juro que eu tentei ao máximo acalmá-lo, mas nada funcionava. Ele não entendia as minhas ironias e brincadeiras. Levava tudo a sério e ficava mais ansioso.
Sugeri que a gente fosse para o cinema e, então, ele disse que não gostava de cinema por causa do barulho e do escuro. Nesse momento, eu me peguei pensando “Se ele não gosta de cinema, por que aceitou ir ao cinema?”. Nós continuamos lá. Depois de algum tempo de conversa, nos beijamos e foi um beijo bem desajeitado. Ele não tinha muita prática.
Depois, fomos até o Burger King para comer, com ele dizendo várias vezes que já trabalhou lá. Tomamos sorvete e nisso já havia passado duas horas. Então, de repente, ele disse que tinha que ir embora para tomar um remédio com horário específico e foi embora com o primo dele, me deixando lá sozinho.
Até hoje eu não sei o que aconteceu, porque eu dei tudo de mim nesse encontro. A gente ainda troca mensagens de vez em quando. Eu e ele gostamos quase das mesmas coisas, mas eu sei que não vai ter como a gente namorar ou algo do tipo. Não que todo encontro deva dar em namoro, mas eu quero muito namorar.
Quando eu aceitei ir para o encontro, eu queria uma experiência nova e não posso negar que tive. Foi diferente. Eu saí completamente da minha zona de conforto, mas não foi tão ruim.
**Texto escrito originalmente em 31 de janeiro de 2023.
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