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Fichamento de Livro : "O Príncipe", de Nicolau Maquiavel

O livro “O Príncipe” foi escrito por Nicolau Maquiavel em 1513 dedicado a Lourenço de Médici II afim de ganhar sua confiança, passando conselhos e ensinamentos de guerra e de governo baseados em suas experiências próprias em conflitos e guerras anteriores quando serviu como diplomata na Europa no início do século XVI.
    A esperança de Maquiavel era de que Lourenço seguisse seus ensinamentos e expulsasse da Itália os invasores vindos de outras regiões, como França e Espanha. O escritor, então, se colocou à disposição pensando na coletividade que seria atingida com as ações do príncipe e o impacto histórico que esse livro poderia ter ao longo dos anos se fosse passado adiante. 
    Maquiavel define três tipo de principados:
  • Hereditários: territórios conquistados em que o poder passa de geração em geração dentro do mesmo núcleo familiar, seguindo uma ordem hierárquica;
    • Novos: os primeiros territórios conquistados por uma família;
    • Mistos: os territórios em que o povo, periodicamente, sente uma necessidade de mudança de governantes, auxiliando a tomada do estado por um novo príncipe;
  • Civis: quando um principado é conquistado por um cidadão comum;
  • Eclesiásticos: são principados conquistados pela Virtú ou pela Fortuna e conservados através da religião. Eles continuam firmes e sempre manterão o poder. Além disso, eles não precisam de exércitos para sua defesa, pois são considerados tranquilos e prósperos.
    Em seguida, Maquiavel cita algumas dicas para que o príncipe permaneça no poder: ter como inimigos todos os que se incomodaram ou se sentiram ofendidos após a conquista, eventualmente sendo preciso reconquistar territórios rebelados; extinguir a família que antes governava aquela região; ganhar a confiança do povo não os oprimindo, assim o príncipe que o proteger será amado e poderá contar com o povo em um momento de necessidade; manter boas relações com os principados vizinhos menos poderosos, que juntos podem se tornar fortes; não fugir da guerra, pois quando ela é antecipada, é combatida sem dificuldades; não aumentar o poder da igreja católica, ainda mais se os aliados a temerem.
    O autor destaca mais um ponto importante, que é o de respeitar diferentes culturas, costumes e leis de províncias que venham a ser conquistadas. Ele aponta que povos com culturas diferentes têm mais dificuldade para fixar seu poder nos territórios, justamente pelo rancor de estrangeiros terem invadido seu país. Esse fator pode ser usado como um artifício de guerra. Para aliviar as adversidades, é mais eficiente residir nele por um certo período de tempo para assegurar poder ou criar colônias militares em locais estratégicos.
    Se tratando de principados civis, existem duas formas de isso acontecer: pela vontade do povo, se este tiver a chance, ou pela vontade dos poderosos, que usarão o novo príncipe como bode expiatório para continuar seus esquemas corruptos, colocando a culpa dos insucessos no novo governante. O príncipe nunca estará seguro nessas condições, pois não conseguirá reinar sobre os poderosos, que continuarão oprimindo o povo e este se tornará hostil com o passar do tempo.
Porém, existe a chance de que alguns poderosos se mostrem pessoas de valor de verdade e deverão ser mantidos. Os que se apresentarem como fracos, podem ser preservados enquanto forem bons conselheiros. Os que se mostrarem contrários devem ser temidos como inimigos.
    Em contrapartida, ele não pode reinar sem um povo, mas pode reinar sem os poderosos e o príncipe que for nomeado pelo povo segue tendo sua confiança. O povo simplesmente não quer mais ser oprimido e o príncipe que o proteger e propiciar uma condição de vida digna, com comida e trabalho garantido, será amado e poderá contar com o povo em um momento de necessidade.
    Maquiavel define dois conceitos muito importantes: a Virtú e a Fortuna.
    A Virtú compreende as habilidades e inteligências que os príncipes devem possuir e estimular para governar, objetivando paz e harmonia no seu principado. Esses príncipes se baseiam em exemplos positivos e o autor cita diversos homens habilidosos, como Alexandre VI, que tentou elevar o poder de seu filho. 
    Ele tinha habilidade para governar e lutou para conquistar um estado fora dos limites da Igreja Católica para seu filho, mas morreu antes de conseguir. O filho, mesmo tentando, não conseguiu fazer boas escolhas e não teve o mesmo êxito que seu pai. A Fortuna que ele herdou de Alexandre VI não foi o suficiente para que conseguisse manter seu reinado, pois não possuía Virtú.
    A Fortuna se trata dos príncipes que fazem uso da sorte. Maquiavel reconhece a facilidade de conquistar, mas a dificuldade de se manter no governo, pois não possuem as habilidades e a sabedoria necessárias para tal. Isso é fato a menos que o príncipe consiga estabelecer bases e relações com outros estados depois de subir ao poder. Consequentemente, o príncipe sempre deve estar alerta, desenvolvendo sua Virtú para obter boas oportunidades mesmo que não esteja em boas condições.
Existe outra forma de subir ao poder: através da perversidade, da traição e da agressividade. A violência tem um início na vida de um príncipe e se apresenta como uma forma de assegurar o poder através do medo, pois, de acordo com Maquiavel, isso mantém o povo unido e incorruptível. Porém, os príncipes que fazem uso de meios violentos não são glorificados como grandes homens.
    A crueldade bem utilizada para a própria segurança do príncipe ou para benefício do povo, sustenta um principado, assim como Agátocles fez em Siracusa e na conquista da Sicília. Se a crueldade continuar de forma descontrolada e imprudente, resulta na perda do território, como o que aconteceu com Oliverotto de Fermo, que traiu seu tio para conquistar a região e criou um governo baseado puramente no medo. Um ano depois, ele foi traído e morto.
    O príncipe deve ser cruel apenas uma vez e praticar o bem com parcimônia, pois a credibilidade de sua benfeitoria será posta em prova se não o fizer no tempo certo, já que assim o povo lembrará muito mais dos atos recentes do que da agressividade que ficou no passado.
    Sobre tropas formadas por milícias ou por mercenários, Maquiavel diz que principados com grande poder precisam ter exércitos organizados, prontos, ativos, disciplinados, treinados e com vínculo forte ao reino. Os príncipes que buscam retardar a guerra, irá perdê-la, pois não se evita um conflito e sim o prorroga, podendo enfrentar um inimigo mais poderoso no futuro.
    O autor desaconselha a utilização de tropas auxiliares e mercenárias, visto que elas são não confiáveis, são ambiciosas, covardes e preguiçosas, usando como exemplo a Itália que, no século XVI, sucumbiu à escravidão e à desgraça por ter depositado suas esperanças nessas tropas. Um principado seguro tem como base seu próprio exército.
    Ao entrar no questionamento “É melhor ser temido ou ser amado?”, Maquiavel opina que o melhor é ser temido, assim como deve ser cauteloso e buscar não cometer as ações que o levariam à ruína.  O príncipe não precisa ser bom e piedoso, tal qual outros governantes normalmente gostam de possuir um ar de piedade. O autor cita exemplos de casos de desordens originadas do excesso de piedade mostrada pelo príncipe.
    Muito se discute hoje em dia sobre o direito da coletividade estar acima do direito de um único indivíduo e Maquiavel já tratava desse assunto, dizendo ser mais razoável que uma pessoa apenas seja prejudicada do que todo o povo. Um príncipe que busca ser bom para todos, será traído em algum momento, pois os seres humanos são ingratos quando não temem o perigo, mas ser temido não é ser odiado e o príncipe precisa equilibrar essas duas percepções, com inteligência e intuição para perceber quem é confiável ou não.
    O príncipe tem de estar preparado para fazer o mal em tempos desfavoráveis, utilizando das leis e das punições, sejam elas quais forem, mas também para escolher quando agirá bem, sendo ardiloso para camuflar sua crueldade. Mesmo que não saiba como fazê-lo, tem que parecer saber.
    Cinco qualidades são atribuídas ao príncipe para que ele conquiste a posição de soberano de um reino, são elas: piedade, fidelidade, integridade, humanidade e religiosidade. Em estado de necessidade, pode-se agir contra esse preceito, mas de forma moderada. Para ser odiado, basta interferir nos bens dos súditos e em suas relações. Para ser amado, necessita participar de atos grandiosos enquanto mantém boas condições de vida, como trabalho, moradia, saúde e lazer.
    Além disso, o principado deve dispor de bons representantes, que podem ser:
  • Servos, que podem ser trocados a qualquer momento e, sendo todos tratados como escravos, não terão condições de se rebelar, ou;
  • Senhores, que administram as terras há gerações, são conhecidos pelo povo e não podem ser trocados ou contrariados sem que haja um conflito. Sempre será possível encontrar senhores descontentes e com condições de instaurar uma revolução, porém, é difícil manter o poder, visto que se eles não eram leais ao antigo príncipe, também não serão leais ao novo, causando instabilidade política.
    Cabe ao príncipe ser sábio e medir quanto poder será atribuído aos seus representantes, para que não confundam o povo em relação a sua autoridade, assim como aconteceu na França.
    É inegável o quanto Maquiavel acrescentou para a filosofia e para a história ao lançar esse livro e, hoje em dia, ainda é possível encontrar impactos dos seus ensinamentos na cultura pop, influenciando produções como “Game of Thrones”, que retrata situações parecidas, e até mesmo em “Vingadores - Guerra Infinita”.

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