Segundo George Orwell, no prefácio da primeira edição do livro, o contexto histórico em que escreveu foi a Segunda Guerra Mundial, começando seus esboços em 1937 e desenvolvendo a escrita em 1943, no auge do conflito militar. Esse livro contém uma enorme carga de discurso político, com uma crítica severa à Revolução Russa de 1917, que deu fim ao regime czarista e deu poder ao socialismo dentro da até então União Soviética.
O livro começa com o discurso do porco Major, que fala sobre o sonho de uma sociedade melhor para os animais da fazenda, onde poderiam viver livremente, com condições melhores de habitação e alimentação. Após a sua morte, dois porcos, Napoleão e Bola-de-Neve tomaram conta da revolução iniciada por Major.
Depois de mais um descaso com os animais da fazenda, eles decidiram se rebelar e colocaram em prática o plano. Em um embate, os animais expulsaram os donos e se apoderaram da Granja do Solar, mudando seu nome, destruindo o que lembrava os humanos e planejaram sua vida em liberdade.
Em pouco tempo, Bola-de-Neve e Napoleão criaram comitês de atuação, rotinas de trabalho e descanso, hábitos, aulas de alfabetização, maneiras de realizar tarefas antes feitas por humanos, além de conseguir fazer a colheita com mais produtividade. Porém, injustiças implícitas começaram a acontecer, como o leite das vacas e as maçãs serem direcionadas apenas para os porcos, pois eles que estão liderando a Granja; ou o fato de alguns não trabalharem, como a gata e a égua Mimosa, que sente falta dos cuidados dos humanos.
A comunidade funcionava de forma correta. Tanto que foi possível impedir uma retomada da Granja pelo antigo dono e seus vizinhos, que também estavam insatisfeitos com as movimentações revolucionárias de seus animais. Porém, a polarização que havia entre os seguidores de Napoleão e Bola-de-Neve começou a dificultar um pouco a vida naquela fazenda, já que os dois nunca concordavam e os debates se mostraram infrutíferos.
Quando Bola-de-Neve iniciou os trabalhos da construção de um moinho de vento, Napoleão se mostrou contra e, usando o poder que foi dado aos porcos e os cachorros que conquistou desde filhotes, expulsou Bola-de-Neve da Granja e tomou conta do território, cerceando direitos, debates e reuniões, diminuindo a alimentação e forçando os animais a novas rotinas de trabalho abusivas. Naquele momento, o regime de liberdade se tornou ditatorial.
A Granja é uma grande metáfora para um país, podendo ser observado seu funcionamento interno, com um governante, seus aliados (que podem ser comparados com a burguesia, pois possuem mais direitos do que os outros), seus seguranças, os trabalhadores (o proletariado, que acredita que a produtividade é sua função, representado principalmente pelo cavalo Sansão) e a mídia (que é personificada através do Garganta, o porco responsável por difundir os ideais de Napoleão pela fazenda, distorcendo o que os animais sabiam, conversavam e se lembravam, aproveitando que a maioria deles não era letrada). Mas também há o funcionamento externo, como Jones tentando recuperar sua fazenda e as relações com as granjas vizinhas, os boatos que são levantados e como os humanos vão influenciando a Granja, como, por exemplo, o Sr. Whymper, simbolizando as relações internacionais entre países.
Em resumo, a construção do moinho de vento não ocorre como o esperado e todo o trabalho é em vão. Napoleão, então, coloca a culpa em Bola-de-Neve e de repente tudo que acontece na fazenda se torna culpa dele. Preciso dizer que, quando eu li esse capítulo, fui pego de surpresa com o desenvolvimento da história, onde, em poucas páginas, Bola-de-Neve se tornou um traidor, Napoleão omitia os problemas da Granja e as galinhas tinham feito uma revolução. De repente, até eu me vi questionando o que eu tinha lido. A minha ficha só caiu quando Napoleão orquestrou um massacre em busca de traidores, onde qualquer crime era punido com a morte.
Foi a primeira vez que animais mataram outros animais. Alguns animais continuaram acreditando na revolução e desenvolveram seus ideais sem saber se expressar até que “Bichos da Inglaterra”,o hino da rebelião, foi proibida e trocada por uma música menos impactante, fazendo com que a desesperança tomasse conta.
A construção do moinho de vento foi finalizada e os animais comemoraram, mesmo com a iminência de um ataque vindo de uma granja inimiga, em meio a diversos boatos, mentiras envolvendo o nome de Bola-de-Neve e diversas contradições vindas dos esquemas de Napoleão, que uma hora dá uma informação aos animais e depois desmente, colocando em cheque a autoconfiança deles.
Depois de um golpe feito pelo Frederick, fazendeiro vizinho que tinha imenso ciúme do moinho de vento da Granja dos Bichos, os animais se prepararam para uma invasão e logo ela aconteceu, resultando na morte de diversos bichos, lesão de outros e a destruição do moinho de vento, jogando fora todo o esforço dos bichos. A batalha, no entanto, foi comemorada pelos porcos, que se mantinham fora da convivência e dos trabalhos da fazenda enquanto todos os outros trabalhavam e, naquele momento, estavam sensibilizados por suas perdas.
Então, as coisas começaram a ficar um pouco claras. Napoleão começou a beber uísque e as regras mudaram, assim como as informações trazidas à fazenda sobre o comércio e sobre os vizinhos, com os porcos se aproveitando da pouca memória dos outros animais.
Um fato importante é o machucado de Sansão depois da batalha, que o impossibilitou de trabalhar e isso foi percebido na Granja. Ele já estava atingindo a idade para se aposentar, regra a qual foi decidida na primeira reunião após a rebelião. Porém, o lugar onde os animais ficariam após a aposentadoria estava ocupado com plantação. Em uma jogada de Napoleão, ao ver que Sansão não melhoraria, o cavalo foi supostamente enviado para uma clínica veterinária. Quando o carro chegou, se revelou o transporte até um matadouro de cavalos, onde Sansão foi morto, tendo sua morte encoberta por Napoleão e Garganta.
Anos se passaram. Alguns animais morreram e outros nasceram, dando continuidade ao legado vindo da rebelião, que já não era tão discutido. O moinho de vento foi construído e outras diversas tecnologias foram adquiridas para ajudar nas plantações e nas colheitas. A morte de Sansão já tinha sido esquecida, Bola-de-Neve nunca retornou (coisa que eu estava esperando imensamente), eles não aprenderam a ler e a escrever e não lembravam mais dos princípios do Animalismo.
Os animais tinham horas de trabalho exaustivas, sem aposentadoria para os que mereciam e com menos comida, sem se lembrar como eram as condições na época de Jones. Os porcos, entretanto, continuavam bem e evoluindo a cada dia mais, chegando ao ponto de começar a andar, vestir roupas, jogar cartas e dançar, mudando a frase que definia a rebelião de “Todos os animais são iguais” para “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros” - o que foi muito impactante para mim, pois evidenciou o quanto as ovelhas eram extremamente influenciáveis e o fato dos animais não questionarem nada e aceitarem tudo.
Certo dia, os donos das fazendas vizinhas visitaram a Granja dos Bichos para um banquete oferecido pelos porcos. Os outros animais se aproximaram do local da reunião e observaram os porcos agirem como humanos, beberem como humanos e falarem como humanos, chegando ao ponto de se confundirem sobre quem são os humanos e quem são os porcos quando uma briga acontece.
Chegando ao final, consegui identificar alguns pontos em comum entre o que Maquiavel falava em “O Príncipe” e “A Revolução dos Bichos” quando ele diz que o sonho do oprimido é se tornar o opressor. Nesse caso, os animais eram oprimidos pelo dono da fazenda e conseguiram modificar essa situação, mas os porcos (ordenados por Napoleão) mantiveram sua vontade de serem os opressores por se acharem superiores e trabalharam para isso, subjugando os outros animais. Sobre como os porcos tomaram o controle das tomadas de decisão se dizendo mais inteligentes e foram cerceando direitos, criando notícias falsas, aumentando de forma abusiva a carga de trabalho, depois criaram um grupo de seguranças, começaram a se relacionar com os inimigos e se isolaram como uma espécie superior enquanto os outros os sustentavam.
A personificação desses animais foi tão bem trabalhada que em alguns momentos eu esquecia que se tratavam de animais e não pessoas, muito por causa do contexto histórico extremamente rico da Revolução Russa, com Napoleão representando Stálin e Bola-de-Neve como Trotsky e essas metáforas são utilizadas na trama para evidenciar a animalização dos seres humanos, além de temas pertinentes até os dias de hoje, como a exploração da mão de obra, a manipulação da mídia, as condutas repressivas do governo, a vaidade da burguesia e outros pontos que ainda fazem parte da sociedade.
Enquanto eu lia, pude traçar alguns paralelos com o filme animado “A Fuga das Galinhas”, que eu assisti quando era criança. Esse filme possui a mesma crítica e essência, mostrando o sonho de galinhas presas em uma granja de serem livres, elaborando um plano para conseguir escapar. Reforça ainda mais a crítica quanto à exploração da mão de obra, colocando as galinhas como os judeus nos campos de concentração nazistas na Segunda Guerra Mundial.
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