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O caso da Ayahuasca 🍵

Eu terminei meu relacionamento no começo de agosto de 2022. Naquele momento, eu decidi que queria viver um pouco mais e sair com mais pessoas. As coisas foram muito rápidas com o meu ex. Nós saímos em um dia, na outra semana levei ele para conhecer meus amigos, depois a minha família e antes do que eu pudesse imaginar, estávamos namorando. Eu não tinha saído com quase ninguém antes dele e queria experimentar mais antes de começar a namorar de novo.

    E não é que o universo atendeu prontamente o meu pedido?

    Desde então eu saí com algumas pessoas e tomei ghosting de outras com quem nem saí, mas uma das vezes que eu mais me marcou foi quando o cara disse que não iria sair comigo porque ia tomar ayahuasca.

    Eu conheci ele pelo Tinder. Alexandre. Era um cara muito simpático e engraçado. A gente marcou de sair no fim de outubro, para ir ao cinema assistir “Halloween Ends”, o ultimo filme dessa nova trilogia. O nosso plano era ir ao cinema e depois ir até o Burguer King para jantar. E foi isso que nós fizemos.

    Eu lembro que no caminho para o cinema a gente encontrou com a minha prima, que estava com o ex dela, e eu apresentei o Xandy como meu amigo. Durante o filme, eu tentei beijar ele diversas vezes, mas ele sempre se distanciava. Me disse que não gostava de demonstrar afeto em público por causa de algumas coisas que aconteceram com ele no passado. Eu não questionei. Esse tipo de coisa é particular de cada pessoa e não pode ser questionado por uma pessoa praticamente desconhecida. Deixei quieto. Se eu ganhasse a confiança dele, ele me contaria quando se sentisse pronto. Mas ele nem me deu a chance disso.

    Depois do filme, nós fomos andando até o Burguer King, que fica em outro shopping. No caminho, ele me deu uns beijos em um lugar mais isolado e escuro. O beijo era muito bom. Tão bom que eu quase esqueci o lugar que a gente tava e como era perigoso.

    A gente jantou enquanto conversava e descobri que ele me conhecia quando eu trabalhava no restaurante dos meus pais, que ele lembrava de mim e que nossos pais provavelmente se conheciam. A conversa fluiu legal e eu achei que isso nos aproximaria. Voltamos para shopping para pedir um Uber e nos beijamos várias vezes durante o caminho. O encontro foi ótimo, mas não é essa a parte interessante. Acontece que alguns dias depois eu tentei marcar outro encontro, mas ele disse que não poderia. De repente, parou de me enviar mensagens. Levei um ghosting.

    Fiquei alguns dias sem entender o porquê desse afastamento até que ele apareceu dizendo que estava estudando demais para a faculdade porque tinha muitas provas. Eu tentei o máximo entender. Até que algumas semanas depois ele apareceu dizendo que não poderia sair comigo porque iria tomar ayahuasca nos dias seguintes e não poderia ter desejos carnais.

    Eu fui super compreensível (até porque era o mínimo que eu podia fazer) e demonstrei interesse em saber mais sobre isso. Ele me disse que a ayahuasca era um chá feito com ervas que provoca alucinações e a pessoa tem a sensação de ter a mente mais aberta. Ou algo assim. Não entendi direito. Daí quem for tomar precisa estar com o corpo e a mente limpos, sem consumir nada de origem animal e nem ter relações sexuais ou desejo por alguém nos dias antes da cerimônia. Porque isso tudo fazia parte de uma cerimônia da religião dele, que não permitia que pessoas de fora fossem de acompanhantes para evitar algum enjoo, o que poderia acontecer. Eu tentei ser legal e me ofereci para acompanhar, mas fui negado.

    Até aí tudo bem. Cada pessoa tem a sua religião. O problema é que passaram duas semanas, eu voltei a entrar em contato e ele me falou a mesma coisa da ayahuasca de novo, que não tinha tomado naquela semana, mas que tomaria na próxima e precisava seguir esse protocolo.

    Todas as vezes que a gente falava sobre sexo, eu sempre pontuava que não estava apenas atrás disso, mas sim que senti uma conexão com ele. Por a gente ser muito parecido. Eu me sentia muito representado nas coisas que ele falava. Dois homens, gordos, gays, com mães super religiosas. A gente tinha muito o que conversar.

    Mas as coisas pararam por aí.  Ele me ligou de madrugada alguns dias depois da nossa última conversa. Estava usando entorpecentes e ali eu me liguei de que a história da ayahuasca era mentira. Que corpo fica limpo depois de usar entorpecentes?

    A gente nunca mais saiu e de todos os ghostings e de todos os foras que eu já levei, esse foi o mais estranho. Até hoje eu não sei até em que ponto a história da ayahuasca era real ou era criatividade para me dispensar, mas não levei para o coração. Tive outros encontros depois e mais outros virão e, acho que, nunca mais ouvirei alguma coisa assim. Me tirou altas risadas, na verdade.

**Texto escrito originalmente em 29 de janeiro de 2023.

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