Pular para o conteúdo principal

A preguiça que nós temos 🥱

Hoje eu recebi uma mensagem que achei que nunca mais receberia. Nem no meu último dia de folga os homens me deixam em paz. De uns tempos para cá as coisas andam muito virtuais e pouco humanas. As pessoas perderam o tato de sentir a outra pessoa antes de falar, afinal de contas é impossível fazer isso através da tela de um celular e hoje eu percebi isso.

    Eu nunca me achei grande coisa, mas algumas situações que aconteceram ano passado me fizeram perceber o quão interessante eu sou. Essas situações com certeza aumentaram exponencialmente a minha auto estima. Não que eu seja rigoroso em relação aos homens que eu saio, mas não aceito mais ser tratado com desdém como eu vinha aceitando.

    Um dia eu dei match com um cara no Tinder. Danilo. Parecia ser um cara muito gente boa. A gente foi se falando até que a conversa migrou para o Instagram, onde eu acho um pouco melhor. No Tinder, não tinha muita informação sobre ele. No Instagram, eu tive acesso a anos e anos de postagens.

    As coisas começaram a sair dos trilhos quando, no meio da madrugada, ele me mandou uma mensagem me chamando para ir na casa dele transar, pois os pais dele tinham finalmente dormido. Eu fiquei um pouco confuso, mas cogitei. Eu nunca sai de casa de madrugada para nada e não pensava que a primeira vez ia ser desse jeito. Não sei como explicar, mas o sexo gay exige alguns preparos que eu não estava disposto a fazer naquela hora. Consequência: não fui.

    Não que esse comportamento fosse um problema. Várias pessoas são assim, mas eu não sou. Eu gosto de ter compromissos marcados e com itinerário definido. Eu gosto de sair de casa com, pelo menos, uma ideia do que vai acontecer, mesmo que os planos possam mudar depois. Pessoas são imprevisíveis. Porém, eu estava disposto a sair da minha zona de conforto. Inúmeras vezes dei a ideia da gente sair em um encontro, mas ele recusava. Ia se criando um padrão. Ele só me queria de madrugada e eu nunca ia. Fui me tornando, mesmo sem querer, um objetivo a ser alcançado.

    Pode parecer arrogante da minha parte usar essas palavras, mas foi exatamente o que eu senti quando publiquei um stories com a minha melhor amiga depois de assistir um jogo do Brasil na Copa do Mundo e, algumas horas deles, ele apareceu trocando mensagens com o namorado dela, que também é meu amigo, deixando-o extremamente desconfortável.

    Eu intervi na situação e entendi que isso era uma forma de chamar a minha atenção. Nós nos resolvemos e eu aceitei um encontro quando ele voltou a me chamar de madrugada. Respondi que ia, me arrumei e fiquei esperando que ele mandasse o endereço dele para que eu pudesse ir, mas ele nunca mandou. Ao meu ver, ele só queria mostrar que tinha o controle da situação. Não aceitava sair, não aceitava ir para um motel. Tinha que ser tudo do jeito dele e ele se acomodava a só querer na casa dos pais, mesmo tendo condição para ir a um motel.

    Eu achei que as coisas dariam certo. Nós dois trabalhamos na mesma área, temos o mesmo posicionamento político e somos sexualmente compatíveis. Eu de fato achei que valeria a pena, mas até hoje não valeu. O desgaste emocional que tudo isso me deu não compensa o que ele poderia me dar se eu cedesse às vontades dele.

    Ele voltou a entrar em contato no Natal e hoje. Sempre com o mesmo papo de esperar os pais saírem ou dormirem e transar no escuro e no silêncio. Como eu saí de uma situação em que eu me senti extremamente especial e o centro das atenções para aceitar passar por esse tipo de coisa? Ao ponto da pessoa só vir atrás quando quer sexo, sem nunca desenvolver um assunto ou conversa e mesmo assim se sentir dono de mim. Eu mereço mais do que isso.

    Com o tempo eu fui desenvolvendo uma preguiça dele e hoje foi a gota d’água. Coloquei um ponto final nessa história que nem começo teve.

**Texto escrito em 09 de março de 2023.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Fichamento de Livro: "A Revolução dos Bichos", de George Orwell

Segundo George Orwell, no prefácio da primeira edição do livro, o contexto histórico em que escreveu foi a Segunda Guerra Mundial, começando seus esboços em 1937 e desenvolvendo a escrita em 1943, no auge do conflito militar. Esse livro contém uma enorme carga de discurso político, com uma crítica severa à Revolução Russa de 1917, que deu fim ao regime czarista e deu poder ao socialismo dentro da até então União Soviética.       O livro começa com o discurso do porco Major, que fala sobre o sonho de uma sociedade melhor para os animais da fazenda, onde poderiam viver livremente, com condições melhores de habitação e alimentação. Após a sua morte, dois porcos, Napoleão e Bola-de-Neve tomaram conta da revolução iniciada por Major.       Depois de mais um descaso com os animais da fazenda, eles decidiram se rebelar e colocaram em prática o plano. Em um embate, os animais expulsaram os donos e se apoderaram da Granja do Solar, mudando seu nome, destru...

Análise Psicológica do Filme "Pearl" (2022)

Pearl (2022) é um filme de terror psicológico que se passa em 1918 e conta a história de uma mulher chamada Pearl. Ela mora em uma fazenda afastada da cidade junto de sua mãe. Pearl é casada com Howard, que é herdeiro de uma família, mas que a deixou para lutar pelos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial e ela se sentiu abandonada por causa disso. Pearl supre a falta do marido com a demonstração de expressões artísticas, como a dança e a atuação.       O filme começa com Pearl dançando e sendo reprimida por sua mãe, Ruth, que é extremamente religiosa e possui um rancor enorme dos Estados Unidos por estar contra a Alemanha, seu país de origem. Ruth inferioriza Pearl, dizendo que ela não é capaz e que deve se concentrar na família. Isso reflete em diversos atos representados por ela durante o filme. Assim como a fazenda representa sua prisão, seus pais representam seus obstáculos. A fazenda ela pode abandonar, mas seus pais, não.       Logo, som...

Fichamento de Livro : "O Príncipe", de Nicolau Maquiavel

O livro “O Príncipe” foi escrito por Nicolau Maquiavel em 1513 dedicado a Lourenço de Médici II afim de ganhar sua confiança, passando conselhos e ensinamentos de guerra e de governo baseados em suas experiências próprias em conflitos e guerras anteriores quando serviu como diplomata na Europa no início do século XVI.      A esperança de Maquiavel era de que Lourenço seguisse seus ensinamentos e expulsasse da Itália os invasores vindos de outras regiões, como França e Espanha. O escritor, então, se colocou à disposição pensando na coletividade que seria atingida com as ações do príncipe e o impacto histórico que esse livro poderia ter ao longo dos anos se fosse passado adiante.       Maquiavel define três tipo de principados: Hereditários: territórios conquistados em que o poder passa de geração em geração dentro do mesmo núcleo familiar, seguindo uma ordem hierárquica; Novos: os primeiros territórios conquistados por uma família; Mistos: os território...